Metamorfose líquida - conto
A chuva cobrara presença. Lavara as calçadas, os postes, as paredes, o guarda-noturno lá na esquina. No silêncio da manhã que desabrochara, nem mesmo o bem-te-vi nos alegrara com sua cantilena. O gato Frufru virara super-herói e desafiara as poças d’água, em miados perversos e rancorosos. O céu cinzento se tornara moldura perfeita para o dia nascente coroado de caos líquido. O Manacá florido também tivera sua cota de sofrimento: despencara em lágrimas saudosas. Restara o desfolhar. O jardim antes aquarela se ressentira com o aguaceiro. Chorara folhas arrancadas e mortas. Se a natureza penara e vertia gotas opacas, o mesmo se poderia dizer dos meus pés, metidos em chinelas aguadas. ...